A investigação de campo é o parte que ela mais gosta e se identifica em toda actividade de investigação, uma vez que é aí que existe o contacto directo com a sociedade. A existência de percalços na investigação de campo é uma realidade, que no início da carreira não se está preparado. A seguir a um percalço, desenvolve-se uma estratégia. A probabilidade é maior quando se trabalha com a dimensão macro-social, ou seja a sociedade, não querendo dizer que esses percalços não existam quando o trabalho de campo é restrito à realidade micro-social, como por exemplo o tecido empresarial.
Percalço, em 2004, bairro degradado
Trabalhar com a multiplicidade etnia, em bairros degradados, e até mesmo perigosos, foi uma experiência inesquecível. Aqui é fundamental que o investigador conheça bem os costumes dessa população, desse bairro. A primeira vez que entrei num local destes, senti-me muito insegura, reparei que a maioria da população olhava para mim. De imediato percebi o porquê, olhei para mim de fora e olhei para os restantes indivíduos que estavam na rua: apesar de estar com um ar descontraído, tinha tenis de marca, estava bem arranjadinha, levava um brilho nos labios, etc.. Pois é, de imediato anulei a observação e voltei no dia seguinte, vestida de outra maneira, e cumprimentando a população que se encontra na rua. Tive
muita sorte, quando uma adolescente com um ar de pouco integrada socialmente (hindu), se dirigiu a mim com alguma curiosidade. De tal maneira a conversa fluiu que se propões em ser a minha guia no bairro. Dizia que nunca tinha visto uma portuguesa que sabia tanto da cultura deles, e que só por isso gostava de me ajudar. Tinha a investigação ganha, mostrou-me tudo, levou-me a todo o lado, entrei com ela em todas as casas, rezei com eles e comi com eles. Dias depois quando a observação terminou, duas mulheres, já de idade, sem saber a língua da sociedade de acolhimento, ou seja, o português, encheram-me de doces típicos e abençoaram-me. Apesar do percalço no inicio, as coisas por acaso até correram bem..!
Percalço, em 2005, etnias
Chegar tarde a uma observação de um dado acontecimento, é um problema para o investigador. Não sou muito dada a essas coisas, mas por vezes surgem contratempos que nos obrigam a isso. Aconteceu comigo, em 2005, durante uma observação na rua. O acontecimento a observar já estava a meio e tinha que tentar reconstruir o que se tinha passado e não tinha observado. Nessa altura, o investigador vê-se obrigado a recolher depoimentos para reconstruir o cenário, ou seja, são as conversas/entrevistas na rua que vão ajudar essa reconstrução. Estavam um grupo de ciganas a vender na rua, e nada melhor que elas para eu conversar, já que essas eu tinha quase a certeza que teriam vivido os 15 minutos anteriores nesse local. A conversa começou com tentativas de vendas, eu tentava mostrar um ar interessado nos artigos como compradora, mas tentando perguntar o que se tinha passado ali, porquê tanta agitação. Penso que devo ter falhado aí – alguma pergunta mal realizada, muita insistência no assunto – porque de repente estava rodeada pelos “homens” delas, todos com um ar muito estranho, com um ar desconfiado, com um ar de incomodados. Pensei, … esta é uma boa altura para sair, e disse: – quero aquele relógio vermelho, quanto custa? A compra do relógio foi o meu passaporte de saída do circulo… e safei-me. A observação ficou incompleta, infelizmente, nem consegui continuar à procura de possíveis entrevistados, as minhas pernas tremiam…
Percalço, em 2007, personalidade pública
Observar acções de figuras publicas, não é tarefa fácil, quando estamos no terreno assumidos como investigadores, ou seja, os observados sabem quem somos e o que estamos a fazer (ou deviam saber!). Cheguei à recepção e encontravam-se 3 elementos do staff que controlavam as entradas dos participantes. A única forma de entrar era identificar-me como investigadora já que o meu nome não estava na lista de participantes. O chefe da recepção disse para o restante, com um ar abrutalhado “Esta senhora é a investigadora – veja lá, então!”. … Entrei, e quando me preparava para observar, um dos observados veio ter comigo e perguntou se eu ia falar com alguém dos presentes. Senti alguma pressão da parte dele, disse-lhe que não ia falar com ninguém e que iria ser muito rápida, uns 10 minutos. Logo de seguida, a figura publica aponta com o dedo para mim e fala para todos os participantes no evento, e diz “ (…) aquela senhora (…) veio aqui para inspeccionar, está a espiar”. Não reagi e dirigi-me para a saída, mas o meu telefone tocou. Pousei a mala num dos bancos da entrada, na tentativa de procurar o telemóvel. Peguei no telemóvel, atendi, sentei-me no banco para arrumar a mala. No momento que terminei o telefonema, a personagem publica chegou ao pé de mim com um ar altivo e agressivo e perguntou-me:
Personalidade Publica: o que está aqui a fazer? O que vai dizer (…) sobre isto?
Natividade: o que pretendo é somente observar, o nosso trabalho insere-se dentro de um sistema, o qual o senhor teve conhecimento prévio.
PP: por acaso sabe que este jantar é para convidados, e a senhora não foi convidada.
N: eu sei, mas eu estou aqui identificada, o seu chefe de recepção permitiu a minha entrada.
Mulher do PP: mas não disse que estava a terminar e que se ia já embora!
N: sim eu disse isso! …mas estão-me a mandar embora?
Mulher PP: não, eu não disse isso!
PP: sabe que uma colega sua, na investigação anterior, disse coisas terriveis. E a senhora pode-me mostra a sua identificação?
N: Claro! (mostrei a declaração de investigadora)
PP: Isto não é nada!
Mostrei o BI. Pegou na declaração e no BI e dirigiu-se para o balcão da recepção (cerca de 10 metros longe de mim) e tirou todas as informações. Minutos depois entregou-me os documentos e ainda exaltado, voltou-me a perguntar:
PP: quais as informações que vai dar, só espero que sejam verdadeiras.
Já mesmo à saída, ainda uma senhora de meia idade dirigiu-se a mim, e disse: por curiosidade, diga-me o que é que inspecciona! O chefe da recepção agarrou-lhe por um braço e afastou-a, dando-me passagem.
Devido a este percalço não consegui terminar a investigação. A estratégia era não deixar transparecer que estava a dar muita importância ao que estava a acontecer, e assumir comportamentos de total controlo. Todo este controlo era falso, uma vez que estava verdadeiramente irritada e muito enervada com toda a situação. Mas sobrevivi… são os ossos do oficio!