Colégio ESMA, em Junho, 04 sobre A violência real na televisão e os efeitos na segunda infância, a alunos do 2º ciclo. Esta palestra conta com a participação da psicóloga Sónia Ferreira Mata e com o apoio do centro comercial dos Olivais www.olivaisshoppingcenter.pt.
A violência real na televisão e os efeitos na segunda infância
Socialização, aquisição de valores, controlo social, e reprodução social
No tema em que pretendo focalizar a minha atenção, os conceitos de socialização, valores, controlo social, aquisição e reprodução social, são considerados como secundários; embora detenham uma elevada importância, visto que, são estes conceitos que balizam, de certa forma, os efeitos da violência real nas crianças.
O conceito de socialização é despoletado automaticamente quando eu penso em relacionar sociologia da comunicação às crianças. Este é “(…) um processo de incorporação e aprendizagem, por parte dos indivíduos, dos sistemas de disposições que lhes permitem movimentar-se na sociedade em que vivem.”[1]
É desta forma que as crianças passam a encontrarem-se de forma consistente, adequada e coerente no contexto em que as envolve, tomando progressivamente consciência das normas, valores e regras que lhe são inculcados.
Este conceito é dinâmico, está em movimento, num processo contínuo; quero dizer que, decorre ao longo de toda a vida do indivíduo social, através de determinados agentes de socialização. São consideradas duas etapas: a socialização primária que decorre na infância encontrando-se a cargo maioritariamente da instância família; e a socialização secundária que faz parte de todo o restante percurso do individuo. Inerente ao tema está a socialização primária e será esta que merecerá uma maior atenção e focalização. Os agentes de socialização foram-se alterando ao longo de todo o processo histórico, com as sociedades contemporâneas a família muda de lugar no processo de socialização, deixando de ser um agente socializador intensivo e passando alguma responsabilidades à instância escola, aos grupos de pares e à media. A estrutura fundamental em que assenta a sociedade está a passar da família para o indivíduo, verifica-se mais do que nunca as pessoas a viverem sozinhas. Esta mudança estrutural também se verifica propriamente nas famílias, ou seja, a família tradicional nas sociedades contemporâneas já não existe, podem existir as famílias monoparentais, homossexuais, família do tipo misto que é constituída por um casal anteriormente casados com outros cônjuges e tendo ambos filhos desses dois casamentos. Desta forma, as condições familiares também se alteraram sob pressão das influências externas. Os pais passam menos tempo em casa, pois muitos deles trabalham longe do local onde moram, as crianças vêem-se cada vez mais entregues à sua própria responsabilidade. Assim, os problemas com que se defrontam os pais, multiplicam-se à medida que a vida se torna mais complexa e com ritmo de mudança muito mais rápido.
Hoje, talvez mais do que nunca, as crianças precisam de habituar-se a pensar. Os acontecimentos e as dificuldades do mundo, afectam a vida diárias delas. Em determinados casos, a instabilidade emocional da criança pode ser devido ao seu próprio sistema nervoso, mas não podemos esquecer que o ambiente, principalmente o familiar, influi muito na sua maneira de reagir.
Com a crescente entrada da mulher no mercado de trabalho, as crianças passam mais tempo na escola, passando esta a ter, para além de uma atitude responsável perante a aprendizagem escolar, um papel de incorporização de valores na vida das crianças. Por outro lado os grupos de pares passam a actuarem neste processo mais cedo na vida das crianças, na medida em que através da instância escola estas encontram-se desde a tenra idade em contacto com crianças da mesma faixa etária. Não obstante de, na actualidade, a importância deste agente se verifique na socialização primária, é na socialização secundária que este atinge o limiar de relevância.
Na actual sociedade surge um agente que a titulo galopante se infiltra na socialização dos indivíduos sociais, em maior escala nas crianças; estou a falar dos media. Os media, e em particular a televisão, ganha espaço à família na questão da socialização infantil. Decorrentes das características das sociedades actuais, as crianças são cada vez mais deixadas ao acaso, sem um controlo rígido, passando horas infinitas em frente à televisão. “Mais do que aquilo que as crianças aprendem na televisão, esta tem a vantagem de faze-las ficar quietas, e até das imobilizá-las”[2], objectivo pretendido dos pais estafados de regresso a casa após um dia de trabalho.
Portanto, os grupos secundários estão progressivamente a adquirir um maior impacto na socialização fase aos grupos primários.
A televisão considerada agente secundário transmite valores e normas que por vezes entram em choque com os anteriormente incutidos pelos agentes primários, no caso a família. Os “(…) valores são sistemas organizados e relativamente duradouros de preferências (…)”[3], ou seja, valores são crenças, são aquilo em que se acredita e segundo o qual se age e se constroem juízos de valor. Portanto, as crianças por serem componentes da massa da sociedade, estão expostos a mensagens, conteúdos e acontecimentos que vão para além da sua experiência, com valores diferentes dos do seu grupo de pertença.
Também no decorrer do processo de socialização infantil, são transmitidas normas às crianças, sendo estas “(…) regras de condutas que se especificam comportamentos considerados adequados numa determinada série de contextos sociais”[4].
Portanto, é a partir das normas e valores que as crianças conseguem estipular os comportamentos a adoptar perante uma determinada situação. Mas as normas e os valores transmitidos às crianças são sujeitas a um filtro de controlo social, protagonizado pela família e pela escola, ou seja, são esses filtros que condicionam a relação das crianças com as mensagens violentas passadas nos telejornais.
“As famílias tem vindo a ser permanentemente agredidas com uma programação cada vez mais chocante, inclusivamente em noticiários (…)”[5], e por esta razão este agente de socialização tem que estar muito atento a este tipo de programação.
Embora na minha perspectiva, torna-se difícil proibir o visionamento da televisão, das notícias, dos desenhos animados susceptíveis de influências negativas na personalidade e comportamentos das crianças, porque o acesso à violência transcende o ambiente familiar, e “às páginas tantas”, já não se consegue controlar. A solução é de facto preparar as crianças para reagirem e interagirem com a violência de uma forma suave e menos perturbadora, através da educação, no debate e na integração, no diálogo de forma participativa. Quanto melhor informada a criança tiver a respeito duma situação susceptível de causar-lhe medo, tanto mais apta ela estará a encontrar os meios de a enfrentar e menores serão as probabilidades do medo. Portanto a ideia de proibir deverá ser somente utilizada em contextos muito específicos, sem razão para se generalizar. Embora não se possa admitir tudo, tem que haver limites, e esses limites estão na sua grande maioria no lado de quem educa. No entanto, se pensarmos bem, a televisão também pode contribuir de certa maneira para esta funções, não transmitindo somente as informações, considerando a criança como um ser autónomo ou acompanhada pela família, mas promovendo um espaço para debate sobre aquilo que aconteceu, construindo a hipótese da existência da uma recepção crítica, criando um espaço de diálogo. As actividades diversificadas exercidas pelas crianças e fomentadas pela família, podem também constituir um amortecedor da violência nas crianças, a noticia na vida da criança que esteja habituada a fazer outras coisas, como por exemplo ler, desenhar, jogar, com uma pratica maior de dimensão cultural tem um significado muito diferente do que aquela criança que só veja televisão, e que fique sozinha.
Como em qualquer coisa, também aqui não podemos aplicar o ditado “nem tanto ao mar nem tanto à terra”, ou seja, o “(…) controlo excessivo por parte da família é desfavorável à formação da personalidade da criança, é bom dar-se uma margem de autonomia, de ter iniciativa e descobrir novas dimensões”[6].
Para além da família exercer o papel de controlo e filtro social, também outros factores ou agentes o podem fazer dependendo do contexto onde a criança está inserida, “(…) Katz e Lazarsfeld haviam posto em evidência o papel das relações grupais e interpessoais na filtragem das mensagens mediáticas recebidas pelos indivíduos”[7].
Finalmente surge o conceito de reprodução social, este refere-se “(…) aos mecanismos através dos quais é mantida e assegurada a continuidade da experiência social através dos tempos (…)”[8]. Em termos práticos, é através da reprodução social que as crianças transportam o que visionam na televisão para o seu dia a dia na vida real.
Em suma, as crianças adquirem valores e normas através do processo de socialização, onde a família ainda tem um papel principal. É este agente de socialização familiar que exerce um maior controlo social nas crianças, tendo estas, consequentemente, uma determinada reprodução social fase a qualquer tipo de fenómeno.
[1] ALMEIDA, João Ferreira de (1994), “Introdução à Sociologia”, Lisboa, Universidade Aberta, p. 229
[2] BENEYTO, idem, p.128
[3] ALMEIDA, idem, p. 230
[4] GIDDENS, Anthony (1997), “Sociologia”, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, p. 869
[5] Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (16, Maio, 2001), http://www.apfn.com.pt/Noticias/Mai2001/apfn16.htm, acedido em 22,12,2003
[6] LENROOT, Katherine (1972), “Your Child from Six to Twelve”, Washington, TC 303, p.34
[7] PINTO, idem, p.105
[8] GIDDENS, idem, p. 871